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A forma como você ensina traduz o que você acredita 24/04/2019

A forma como você ensina traduz o que você acredita

O modelo de ensino em que o professor é um tutor emocional é algo muito novo. Um tutor emocional é aquele que reconhece suas próprias emoções e acaba se tornando um exemplo de quem consegue conduzir as emoções dos alunos, e não destruí-las ou desqualificá-las, afirma a médica geriatra (USP) e especialista em Cuidados Paliativos (Instituto Pallium e Universidade de Oxford) Ana Claudia Arantes. Ela estará no XV Congresso do Ensino Privado Gaúcho, na Pucrs, em Porto Alegre, no dia 26 de julho, às 8h30, com a palestra "Professor, atitude amorosa na aprendizagem". 

A médica acredita que o ensino tem se pautado, basicamente, sobre a necessidade de sucesso. "Ganha, ganha, ganha. Como ser feliz, como ganhar bem, como ter uma carreira de sucesso. (Se pauta) em você construir a sua história em cima de programas que vão te dar a segurança de ter tudo o que você sempre sonhou. Só que a vida não é assim", contesta. O objetivo de Ana Claudia é trazer para discussão uma nova possibilidade de aprendizado, uma forma de ensino que traga às crianças e aos adolescentes a chance de interagir melhor com um mundo que se apresenta muito hostil.

"A vida nunca nos proporcionou uma possibilidade de 100% de sucesso. Só que a gente não aprende a perder, não aprende a reconhecer no adversário uma pessoa que também quer ser feliz." E essa nova forma de ensinar trata disso, de proporcionar aos alunos uma vida mais realizada, de fato; de mostrar que a realização não está só no sucesso. "Realização é perder e saber perder. Saber reconhecer que o fracasso está em você desistir do seu sonho, não em você ter que esperar mais tempo para realizá-lo ou (perceber) que neste momento não é possível. Ter lealdade ao teu sonho é uma coisa que gente pode ensinar na escola. Lealdade, compaixão, reconhecimento da humanidade como uma característica de sucesso no ser humano."

Ana Claudia afirma que muitas coisas, hoje em dia, fazem com que as pessoas se distanciem da sua humanidade. As escolas de medicina são um exemplo disso, com a premissa de que o bom médico é o médico frio, que não se contamina com o sofrimento dos pacientes. "E o que a gente está vendo é que esses são médicos ruins. Eles podem ser muito bons tecnicamente, mas são péssimos para cuidar dos pacientes. E isso se repete em todas as áreas. Seu trabalho se diferencia pelo contato humano que você tem com as pessoas, e isso a escola não ensina. Se a escola pudesse ensinar como dar más notícias, como viver o luto, como você perde sonhos, possibilidades, pessoas, aí a gente teria seres humanos inteiros para viver uma vida que traz muitos desafios."

Os professores, no entanto, nem sempre estão preparados para essa tutoria. E as escolas são instituições muito rígidas, segundo a médica. "É difícil pensar numa mudança que parta do princípio de que a escola modifica seus alunos. Quem modifica os alunos são os professores. Na sua história, você não se lembra da escola que estudou, que era maravilhosa, você se lembra do professor." O papel da escola seria, então, proporcionar um espaço acolhedor para que o professor possa ser essa referência. "Isso sim, acho que a escola pode favorecer a referência do professor como esse tutor emocional, que conduz o processo de aprendizado de uma forma humana, afetiva, sem ser protecionista, paternalista."

Para Ana Claudia, a formação de um professor precisa ser construída nessa elaboração emocional, ele mesmo, na relação com seus pares e com seus alunos. "O conteúdo que você ensina não é tão importante quanto à forma como você ensina. Você pode ensinar Português, História, Matemática, Geografia, qualquer coisa. Mas a forma como você ensina traduz o que você acredita."