A evolução da pedagogia entre os desafios tecnológicos e a essência do afeto
Alusivo ao Dia do Pedagogo, educadores refletem sobre a carreira em tempos de mudanças nos processos de aprendizagem
A escolha de uma profissão é um marco importante da vida. Optar por ensinar, seja na Educação Infantil ou no Ensino Médio, é algo que envolve dedicação, formação constante e apreço pelo encontro com os estudantes. O dia 20 de maio marca a comemoração do Dia do Pedagogo, profissionais que há algumas décadas eram reconhecidos por atuarem em uma função estritamente técnica ou voltada apenas à alfabetização, mas que se transformou em uma das carreiras mais complexas da atualidade.
Para Naime Pigatto, assessora pedagógica e de legislação do SINEPE/RS, a pedagogia exige hoje um equilíbrio raro entre o domínio normativo e a sensibilidade social. Com quase três décadas de experiência na educação básica e superior, ela observa que o papel do pedagogo se expandiu à medida que a escola passou a absorver demandas que extrapolam o currículo tradicional.
"A escola passou a receber inúmeras atribuições que antes eram assumidas prioritariamente pelas famílias e pela própria sociedade. Questões emocionais, comportamentais, sociais e até de limites chegam cada vez mais intensamente ao espaço escolar, exigindo do pedagogo preparo técnico, equilíbrio emocional, capacidade de mediação e escuta extremamente qualificada", pontua Naime.
Transformações da profissão
A velocidade das transformações globais também impõe ao pedagogo o papel de eterno estudante. Segundo a assessora, o profissional contemporâneo precisa transitar por áreas como gestão, saúde emocional, tecnologias e inclusão. Essa multidimensionalidade exige o que Naime chama de "profissionais intelectualmente inquietos".
"O pedagogo precisa compreender que sua imagem, linguagem, postura e forma de se relacionar também educam e comunicam profissionalismo. Isso envolve saber comunicar-se adequadamente, escrever corretamente, ouvir com atenção, respeitar tempos e processos", afirma.
Um dos pontos centrais da reflexão para este Dia do Pedagogo é a necessidade de fortalecer a autoridade desses profissionais perante a comunidade escolar e a sociedade. Naime destaca que o trabalho pedagógico é, muitas vezes, questionado sem que se reconheça sua real complexidade técnica.
"Considero fundamental que os pedagogos estejam empoderados, conscientes da relevância social de sua atuação e da potência transformadora que possuem nos diferentes espaços em que atuam", defende.
Este empoderamento está presente em profissionais como Rosane Inês Volken, diretora do Colégio Scalabriniano São José, na cidade de Roca Sales, região do Vale do Taquari. Em um contexto em que as transformações ocorrem em ritmo frenético, ela sustenta que o "jeito de fazer educação" precisa de ajustes constantes, mas sem perder sua essência, que é o trabalho para o desenvolvimento integral do ser humano.
"O maior desafio está em lidar com um grupo de pessoas tão diversas e unidas pela mesma causa. Ter sempre muito presente que cada aluno, cada família e cada professor que está na escola é único, tem a sua individualidade, mas necessariamente precisamos trabalhar no coletivo", afirma Rosane.
Em tempos de debates intensos sobre a inteligência artificial e a digitalização do ensino, a diretora acredita que a tecnologia é uma ferramenta, mas o propósito ainda é humano.
"Todos os recursos tecnológicos e todas as maravilhas da inteligência artificial, se não forem bem conduzidos por alguém com um bom coração e com boas intenções, perdem o sentido. É preciso ter coragem, brilho nos olhos e um misto de ousadia e paixão", aconselha.
Opinião semelhante é a de Marli Cardoso, coordenadora pedagógica do Colégio São José, em São Leopoldo. O momento atual, segundo ela, exige uma distinção clara entre o acesso aos dados e a construção do saber. As ferramentas tecnológicas demandam uma apropriação crítica por parte dos docentes, inclusive quando o assunto é o bem-estar emocional dos alunos.
"O aluno só consegue se dedicar na totalidade dentro da sala de aula quando está totalmente voltado para aquele ambiente. E, para isso, ele tem que ter uma saúde física e mental adequada, estabelecida e reforçada", defende a professora.
Outra frente que exige do pedagogo um fôlego constante para criar estratégias é a inclusão escolar. Longe de ser apenas uma formalidade, o tema exige uma busca por propostas que garantam o conhecimento na íntegra para cada estudante, respeitando suas particularidades.
"É adaptar e incluir aquele aluno com metodologias eficientes para que ele possa ter um acesso tão preciso ao conhecimento quanto qualquer outro estudante", pontua Marli.
Emoção de ser pedagogo
Incluir é um verbo que também se faz presente no trabalho de Susana Laís Brondani, professora do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Frederico Westphalen. Com 15 anos de experiência profissional, ela segue acreditando que a pedagogia encontra sua maior potência na emoção. Para ela, o lugar do pedagogo na sociedade é comparável ao de um guia.
"Sempre senti que educar também é ser um farol no desenvolvimento e no crescimento de alguém", define Susana, que descobriu seu lugar no mundo por meio da contação de histórias e da facilidade de comunicação com as crianças.
A dimensão do impacto que um professor causa na trajetória de seus alunos merece atenção. A professora acredita que, mais do que fórmulas ou regras gramaticais, são as palavras de incentivo e os gestos de acolhimento que consolidam o conhecimento.
"Escolher a Pedagogia é, acima de tudo, envolver-se afetivamente. É ter a oportunidade de fazer a diferença na vida das pessoas de uma forma que ninguém mais consegue fazer. E está aí a grande importância dessa profissão", avalia Susana.
Ao celebrar a data, Naime Pigatto reforça que a escolha por esta carreira é um ato de coragem e sensibilidade. "A Pedagogia é uma profissão profundamente humana. Exige resistência, estudo, sensibilidade e coragem. Existem adversidades ao longo da caminhada, sem dúvida. Mas também existem encontros transformadores, histórias que marcam vidas e a possibilidade diária de inspirar pessoas e construir futuros", conclui.